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27 de Maio de 2020

FaceApp: você está pagando com seus dados

Marcílio Guedes Drummond, Advogado
há 10 meses

O aplicativo FaceApp está fazendo grande sucesso por todo o mundo. Os usuários podem até não perceber, mas estão pagando (caro) por ele.

O que ele faz é prever como seriamos mais velhos, mais novos, ou até mesmo com outro corte de cabelo, por exemplo, tudo por meio de combinações de algoritmos de inteligência artificial.

Aos olhos da maioria das pessoas, é apenas um "app inofensivo" e essas mesmas pessoas sequer se perguntam porque alguém faria "gratuitamente" algo tão interessante e recheado de inteligência artificial.

Será que essas mesmas pessoas mudariam de opinião se soubessem que o app foi criado por uma empresa russa? É isso mesmo, o FaceApp foi criado pelo organização russa Wireless Lab.

Porém, a grande questão não está na nacionalidade da empresa criadora do app. O que acontece de fato é que essa empresa não é uma organização benevolente, criadora de uma "diversão gratuita". Os usuários do FaceApp estão pagando à Wireless Lab: com seus próprios dados (presentes e, potencialmente, futuros).

Veja, de uma vez por todas você precisa entender que estamos no mundo data-driven (guiado por dados), em função da 4ª Revolução Industrial (Cibernética), na qual os dados possuem enorme valor e utilidade, sobretudo quando podem ser organizados e classificados.

Portanto, lembre-se sempre: dados são ativos digitais e como tal, podem valer muito dinheiro.

Então, a Wireless Lab, criadora da app, está recolhendo informações sobre os utilizadores e construindo uma enorme e valiosa base de dados, tudo isso com a autorização dos usuários.

Por aqui você pode ler na íntegra a política de privacidade. Os usuários que baixam o FaceApp concordam com todos os termos descritos aqui.

Destaco que os russos da Wireless Lab podem:

  • Coletar todo o conteúdo do usuário (por exemplo, fotos e outros materiais) publicados no app.
  • Monitorar quais páginas da Web foram visitadas pelo usuário.
  • Coletar o endereço IP, tipo de navegador, páginas de referência / saída e URLs, número de cliques e como você interage com links no Serviço, nomes de domínio, páginas de destino, páginas visualizadas e outras informações desse tipo.
  • Acessar, coletar, monitorar, armazenar em seu dispositivo e / ou armazenar remotamente um ou mais "identificadores de dispositivo".

Veja que, por meio dessa enorme quantidade de dados captados e armazenados, a Wireless Lab pode também treinar cada vez mais os seus algoritmos de inteligência artificial, como já fez (e continua fazendo) o Google.

Repare ainda, na Política de Privacidade do FaceApp, como são amplas as possibilidades de utilização dos dados do usuário:

  • Fornecer conteúdo e informações personalizadas para você e outras pessoas, que podem incluir anúncios online ou outras formas de marketing
  • Fornecer, melhorar, testar e monitorar a eficácia do nosso serviço
  • Desenvolver e testar novos produtos e recursos
  • Monitorar métricas como número total de visitantes, tráfego e padrões demográficos
  • Diagnosticar ou corrigir problemas de tecnologia
  • Atualizar automaticamente o aplicativo FaceApp no seu dispositivo

Chamo a atenção ainda que, em meio ao debate ético, por todo o mundo, sobre a utilização de reconhecimento facial dos cidadãos por governos e empresas, sobretudo quanto à transparência de como são usadas as informações coletadas, os dados captados pelo FaceApp possuem potencialmente um valor financeiro ainda mais elevado.

Isso porque podem contribuir para um maior percentual de acerto nas analises relacionadas ao reconhecimento facial, seja na ampliação dos bancos de dados - tanto ampliando o número de pessoas, quanto o número de fotos de uma mesma pessoa -, seja no desenvolvimento e treinamento de algoritmos de inteligência artificial de reconhecimento facial.

Talvez você não se importe com o uso dos seus dados e isso é um direito seu.

Porém, a intenção deste texto é conscientizar às pessoas que nem mesmo no mundo digital existe "almoço grátis", ou seja, no mundo dos dados, se algo é "gratuito", então o produto é o próprio usuário.

Por Marcílio Guedes Drummond

Divulgado inicialmente no LinkedIn

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73 Comentários

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Nossa! Uma organização Russa! Deus nos proteja.
PS. Mas Facebook não tem problema. continuar lendo

tb pensei nisso! rsrsrsrs continuar lendo

Eu, particularmente, creio que os russos nos representam menos perigo do que os norte americanos. Vejam o que acontece com alguns funcionários da DISNEY que disseram à neta de Roy Disney, irmão de Walt Disney e co fundador da Disney animações, que para complementar a alimentação da família, necessitam coletar comida do lixo dos seus vizinhos. Isso é o capitalismo, valor só tem o dinheiro, as coisas materiais. Li, ainda ontem no site da Microsoft, o MSN notícias. continuar lendo

Hahahah, também pensei nisso! Mas são técnicas de inbound marketing, meu caro! =) continuar lendo

O que é engraçado é a pessoa achar legal que o Google aponta a sua localização e até indica estabelecimentos comerciais durante o seu percurso! continuar lendo

Desde o Facebook, já temos esse tipo de coleta de dados. Quantos milhões de aplicativos já tem essa tendência e muitos não lêem os termos, começando pelos jogos? E temos o problema de que a Google tem aplicativos que copiam jogos e ferramentas de utilidade do dia a dia, sem ter a devida certificação de acordo com a política planejada pela empresa.
Caso não acompanhemos as políticas de uso dos aplicativos que surgem, atendência será de cairmos naqueles truques de filmes onde aparece um papel de parede na tela do smartphone e vira um Big Brother dentro do aparelho. continuar lendo

"Divulgado inicialmente no LinkedIn"

É bom sempre lembrarmos da máxima: Quando o serviço é gratuito, o produto é você. continuar lendo

Devemos, nesses casos, aplicar a mesma lógica que os guelfos e guibelinos; quem é uma ameaça maior? Se os americanos, nos alinhemos aos russos. Se os russos, nos alinhemos aos americanos. Mas cumpre nunca esquecer: ambos são ameaças, ambos espionam, ambos manipulam nossos dados. Para quê agências sofisticadas de inteligência, quando entregamos de bom grado, de graça e boa vontade, tudo o que precisam saber? O jeito é proteger o que é possível, e entregar o que não é. Ou, voltar ao celular tradicional, aos computadores UNIX, e navegar sempre em modo anônimo, na lan house da esquina (ainda existem?). continuar lendo

Exatamente como fazem Google, Facebook, Instagram, WhatsApp, Telegram, Microsoft, Yahoo etc. A imensa maioria dos apps em nossos smartphones possuem as mesmas políticas. continuar lendo

O Google faz isso o tempo todo. continuar lendo

E parece que boa parte não está nem um pouco preocupada em entregar seus dados às empresas que oferecem entretenimento fútil por meio de aplicativos. Mas, como dito no ótimo artigo, "não se importar com seus dados é um direito seu".
Minha opinião: Até que o custo de sua inconsequência apareça para lhe fazer parar de se pendurar em tudo quanto é app colorido. continuar lendo

Acredito que você tem ou já teve: Facebook, Gmail, Instagram, LinkedIn, conta Google, entre tantos outros. Estes também coletam seus dados e os utilizam para benefício próprio. Perceba que este artigo foi escrito com base em informação "debunked" por especialistas. Sugiro que procure contato com profissionais de desenvolvimento de softwares e, possivelmente, mudará de opinião. continuar lendo